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Apresentados

O impacto do telemóvel no silêncio interior

O silêncio tornou-se raro. Não porque o mundo seja mais ruidoso, mas porque já não o permitimos. Sempre que surge um momento de pausa, recorremos ao telemóvel. Preenchemos o vazio antes que ele exista. O problema é que o silêncio não é vazio. É no silêncio que pensamos. Que sentimos. Que organizamos o que está dentro de nós. Mas, ao evitá-lo constantemente, perdemos esse espaço interior. O telemóvel tornou-se uma extensão da nossa atenção. Sempre disponível, sempre presente, sempre pronto a ocupar qualquer intervalo. E, aos poucos, deixamos de saber estar sem ele. Mas o custo disso é alto. Perdemos momentos de reflexão. Perdemos contacto connosco. Perdemos a capacidade de simplesmente estar. Talvez não precisemos de eliminar o ruído. Talvez precisemos apenas de reaprender o silêncio.

O problema não é sentir — é não saber onde colocar o que sentimos

O problema nunca foi sentir.

O problema é não saber onde colocar o que sentimos.

As emoções surgem sem pedir autorização. Aparecem, instalam-se, ocupam espaço. Algumas são leves, fáceis de lidar. Outras são densas, difíceis de compreender, quase impossíveis de ignorar.

E é aí que começa o desafio.

Não fomos ensinados a lidar com emoções. Fomos ensinados a controlá-las, a escondê-las, a seguir em frente como se nada fosse. Mas aquilo que sentimos não desaparece só porque decidimos ignorar.

Fica.

Acumula-se.

E, com o tempo, transforma-se.

O problema não é sentir tristeza, ansiedade, medo ou confusão. O problema é não ter um lugar para colocar essas emoções. Não ter um espaço onde possam existir sem julgamento.

Quando não sabemos o que fazer com o que sentimos, tentamos afastar. Distraímo-nos, ocupamo-nos, evitamos. Mas isso é apenas uma solução temporária. Porque mais cedo ou mais tarde, tudo volta.

Precisamos de espaços seguros.
Espaços onde possamos ser honestos. Onde possamos sentir sem medo.

A escrita é um desses espaços.

Quando escrevemos, criamos um lugar para as emoções existirem. Não precisamos de as resolver imediatamente. Apenas de as reconhecer. De as deixar sair. De lhes dar forma.

Escrever não elimina o que sentimos, mas organiza. Dá estrutura ao que antes era apenas peso. Permite-nos compreender melhor aquilo que estamos a viver.

E, muitas vezes, isso já é suficiente para aliviar.

O problema não é sentir.
É carregar tudo sozinho, sem saber para onde ir com isso.

E talvez seja por isso que precisamos tanto de palavras.

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