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Apresentados

Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa

 Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa. Há emoções que não se ajustam ao tempo curto de um diálogo, nem ao ruído que o envolve. As conversas pedem respostas rápidas, palavras imediatas, explicações claras. Mas o que sentimos raramente é claro. O que sentimos é denso, confuso, por vezes contraditório. E, muitas vezes, precisa de silêncio antes de precisar de palavras. Numa conversa, somos interrompidos pelo olhar do outro, pelas reações, pelas expectativas. Pensamos no que dizer, mas também no que evitar. Medimos palavras, suavizamos verdades, escondemos partes de nós para manter o equilíbrio. Nem sempre é falta de coragem — muitas vezes é apenas consciência de que aquele espaço não é suficiente para aquilo que sentimos carregar. Há sentimentos que precisam de tempo para se organizarem. Precisam de pausa, de escuta interior, de um ritmo mais lento. Quando tentamos colocá-los numa conversa apressada, parecem perder profundidade. Tornam-se rasos, incompletos, mal compreendidos...

A solidão moderna: um mal silencioso num mundo sempre ligado

 A solidão não se trata apenas de estar sozinho. Pelo menos, não a solidão atual. Ela nasce da falta de ligação emocional, fruto da velocidade do tempo em que vivemos. Estamos todos ligados uns aos outros, porém vivemos de forma isolada, como ilhas.

Vivemos num silêncio emocional, apesar de estarmos num mundo repleto de estímulos. Quantas notificações recebemos por dia no nosso telemóvel? Dez, cem ou mais? São tantas as solicitações que, por vezes, nem conseguimos responder a todas. Mas será que esses estímulos digitais conseguem preencher o nosso vazio emocional? Será que é isso que realmente necessitamos para não nos sentirmos sozinhos?

A solidão moderna é, acima de tudo, psicológica. É a falta de estímulos interiores e de tempo para as nossas próprias emoções. Precisamos de comunicação presencial e não apenas digital. A presença não é substituível. As relações presenciais são as mais afetivas. No entanto, precisamos também de tempo de qualidade connosco, para dar espaço às nossas emoções e reflexões.

A solidão não é o facto de estarmos sós; é não nos sentirmos bem na nossa própria presença. Quando isso acontece, precisamos parar e refletir sobre como estamos a permitir que o mundo à nossa volta nos influencie. Podemos não estar a receber os estímulos certos daquilo que nos rodeia. Será que estamos a colocar os filtros adequados nos estímulos que recebemos do exterior e que nos bombardeiam diariamente?

Todos nós precisamos de momentos a sós para nos organizarmos interiormente e entendermos, em cada fase, os nossos sentimentos, bem como para gerir as nossas emoções. É tempo de qualidade connosco. Não se trata apenas de ficarmos fisicamente sozinhos, mas de usar esse tempo para nos ligarmos interiormente. Para recarregar as nossas baterias internas.

A solidão torna-se nociva quando é acompanhada de estímulos superficiais. Precisamos de estímulos reais e físicos, num mundo em que estamos cada vez mais ligados pelos ecrãs, mas desligados das emoções verdadeiras. É um mundo superficial e pouco concreto.

A mim, pessoalmente, a escrita ajuda-me a estar bem comigo mesmo. É como se retirasse tempo para mim, para organizar as minhas ideias e refletir sobre os meus sentimentos. A escrita transforma-me a cada parágrafo. Faz-me evoluir no conhecimento do meu eu interior. Ajuda-me a lidar com as minhas emoções e a exteriorizá-las da forma correta.

O objetivo da escrita não é combater a solidão; é torná-la agradável e importante na nossa vida. A escrita torna-se impactante quando conseguimos extrair de nós, da forma mais fiel possível, as nossas emoções e os nossos pensamentos, e, por meio da reflexão, encontrar as palavras certas para os exprimir.

Isso faz com que nos sintamos bem connosco e com a nossa solidão.

Escrevo porque gosto de estar comigo mesmo. É tempo passado com qualidade, tempo que me enriquece e que me faz querer que demore a passar. É como se estivesse a falar comigo, mas com conversas altamente significativas, daquelas que temos dificuldade em terminar.

Quando escrevo, o ritmo do tempo torna-se mais lento, permitindo-me usufruir do meu eu interior de forma mais plena. Sou convocado para momentos de silêncio, que me ajudam a estar comigo mesmo de forma ímpar e a perceber aquilo que realmente me faz falta.

No fundo, todos nós somos como ilhas isoladas que podem construir pontes entre si, por meio da escrita, mas também da leitura. A leitura une quem escreve a quem lê. Convida-nos a refletir sobre a nossa própria solidão. Permite-nos viver a história de outros, muitas vezes espelhada em nós. Permite-nos imaginar como seria se a vida fosse de outra forma. Faz-nos querer explorar novos mundos dentro de nós. Alavancar o nosso conhecimento do outro e de nós mesmos. Potenciar o nosso crescimento e a nossa maturidade interior.

Cada vez que lemos é como marcar um encontro connosco, na hora e no local habitual, mas sempre com a expectativa de algo novo. É como cruzar a fronteira para algo desconhecido, mas que rapidamente se torna familiar. É conhecer aquilo que antes desconhecíamos. É esperar sempre algo novo cada vez que um livro se abre para nós. São novos sentimentos que se criam e emanam da nossa solidão acompanhada.

Aqui, no lugar onde me encontro, existe solidão na escrita, reflexão silenciosa e sentimentos expressos por meio de palavras. Espero ter escolhido as melhores para expressar o que sinto e ter conseguido transportar as minhas emoções para quem lê. Desejo profundamente que nos continuemos a encontrar neste lugar onde a solidão é sinónimo de tranquilidade e paz interior.

Afinal, este é o lugar onde me encontro consigo…

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