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Apresentados

O cansaço que não vem do corpo

 Há um cansaço que não se resolve com descanso. Podemos dormir mais horas, desligar o despertador, abrandar o ritmo dos dias, e ainda assim ele permanece. Não se instala nos músculos nem se manifesta em dores físicas evidentes. É um cansaço silencioso, quase invisível, que se acumula por dentro, feito de pensamentos não resolvidos, emoções adiadas e palavras que nunca chegaram a ser ditas. É o cansaço de estar sempre a tentar ser suficiente. De tentar corresponder às expectativas dos outros, de manter uma imagem estável quando por dentro algo já começou a ruir. É o desgaste de viver em permanente adaptação, de moldar quem somos ao que esperam de nós, mesmo quando isso nos afasta da nossa verdade interior. Este cansaço nasce quando nos afastamos de nós próprios. Quando ignoramos os sinais subtis que o interior nos envia, em nome da rotina, da produtividade ou da urgência constante do mundo exterior. O corpo continua, cumpre, responde. Mas a mente e o coração vão ficando para trás,...

A solidão moderna: um mal silencioso num mundo sempre ligado

 A solidão não se trata apenas de estar sozinho. Pelo menos, não a solidão atual. Ela nasce da falta de ligação emocional, fruto da velocidade do tempo em que vivemos. Estamos todos ligados uns aos outros, porém vivemos de forma isolada, como ilhas.

Vivemos num silêncio emocional, apesar de estarmos num mundo repleto de estímulos. Quantas notificações recebemos por dia no nosso telemóvel? Dez, cem ou mais? São tantas as solicitações que, por vezes, nem conseguimos responder a todas. Mas será que esses estímulos digitais conseguem preencher o nosso vazio emocional? Será que é isso que realmente necessitamos para não nos sentirmos sozinhos?

A solidão moderna é, acima de tudo, psicológica. É a falta de estímulos interiores e de tempo para as nossas próprias emoções. Precisamos de comunicação presencial e não apenas digital. A presença não é substituível. As relações presenciais são as mais afetivas. No entanto, precisamos também de tempo de qualidade connosco, para dar espaço às nossas emoções e reflexões.

A solidão não é o facto de estarmos sós; é não nos sentirmos bem na nossa própria presença. Quando isso acontece, precisamos parar e refletir sobre como estamos a permitir que o mundo à nossa volta nos influencie. Podemos não estar a receber os estímulos certos daquilo que nos rodeia. Será que estamos a colocar os filtros adequados nos estímulos que recebemos do exterior e que nos bombardeiam diariamente?

Todos nós precisamos de momentos a sós para nos organizarmos interiormente e entendermos, em cada fase, os nossos sentimentos, bem como para gerir as nossas emoções. É tempo de qualidade connosco. Não se trata apenas de ficarmos fisicamente sozinhos, mas de usar esse tempo para nos ligarmos interiormente. Para recarregar as nossas baterias internas.

A solidão torna-se nociva quando é acompanhada de estímulos superficiais. Precisamos de estímulos reais e físicos, num mundo em que estamos cada vez mais ligados pelos ecrãs, mas desligados das emoções verdadeiras. É um mundo superficial e pouco concreto.

A mim, pessoalmente, a escrita ajuda-me a estar bem comigo mesmo. É como se retirasse tempo para mim, para organizar as minhas ideias e refletir sobre os meus sentimentos. A escrita transforma-me a cada parágrafo. Faz-me evoluir no conhecimento do meu eu interior. Ajuda-me a lidar com as minhas emoções e a exteriorizá-las da forma correta.

O objetivo da escrita não é combater a solidão; é torná-la agradável e importante na nossa vida. A escrita torna-se impactante quando conseguimos extrair de nós, da forma mais fiel possível, as nossas emoções e os nossos pensamentos, e, por meio da reflexão, encontrar as palavras certas para os exprimir.

Isso faz com que nos sintamos bem connosco e com a nossa solidão.

Escrevo porque gosto de estar comigo mesmo. É tempo passado com qualidade, tempo que me enriquece e que me faz querer que demore a passar. É como se estivesse a falar comigo, mas com conversas altamente significativas, daquelas que temos dificuldade em terminar.

Quando escrevo, o ritmo do tempo torna-se mais lento, permitindo-me usufruir do meu eu interior de forma mais plena. Sou convocado para momentos de silêncio, que me ajudam a estar comigo mesmo de forma ímpar e a perceber aquilo que realmente me faz falta.

No fundo, todos nós somos como ilhas isoladas que podem construir pontes entre si, por meio da escrita, mas também da leitura. A leitura une quem escreve a quem lê. Convida-nos a refletir sobre a nossa própria solidão. Permite-nos viver a história de outros, muitas vezes espelhada em nós. Permite-nos imaginar como seria se a vida fosse de outra forma. Faz-nos querer explorar novos mundos dentro de nós. Alavancar o nosso conhecimento do outro e de nós mesmos. Potenciar o nosso crescimento e a nossa maturidade interior.

Cada vez que lemos é como marcar um encontro connosco, na hora e no local habitual, mas sempre com a expectativa de algo novo. É como cruzar a fronteira para algo desconhecido, mas que rapidamente se torna familiar. É conhecer aquilo que antes desconhecíamos. É esperar sempre algo novo cada vez que um livro se abre para nós. São novos sentimentos que se criam e emanam da nossa solidão acompanhada.

Aqui, no lugar onde me encontro, existe solidão na escrita, reflexão silenciosa e sentimentos expressos por meio de palavras. Espero ter escolhido as melhores para expressar o que sinto e ter conseguido transportar as minhas emoções para quem lê. Desejo profundamente que nos continuemos a encontrar neste lugar onde a solidão é sinónimo de tranquilidade e paz interior.

Afinal, este é o lugar onde me encontro consigo…

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