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Apresentados

Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa

 Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa. Há emoções que não se ajustam ao tempo curto de um diálogo, nem ao ruído que o envolve. As conversas pedem respostas rápidas, palavras imediatas, explicações claras. Mas o que sentimos raramente é claro. O que sentimos é denso, confuso, por vezes contraditório. E, muitas vezes, precisa de silêncio antes de precisar de palavras. Numa conversa, somos interrompidos pelo olhar do outro, pelas reações, pelas expectativas. Pensamos no que dizer, mas também no que evitar. Medimos palavras, suavizamos verdades, escondemos partes de nós para manter o equilíbrio. Nem sempre é falta de coragem — muitas vezes é apenas consciência de que aquele espaço não é suficiente para aquilo que sentimos carregar. Há sentimentos que precisam de tempo para se organizarem. Precisam de pausa, de escuta interior, de um ritmo mais lento. Quando tentamos colocá-los numa conversa apressada, parecem perder profundidade. Tornam-se rasos, incompletos, mal compreendidos...

Porque continuamos a procurar sentido nas palavras

 O ser humano sempre procurou significado. E foram as palavras a primeira ferramenta para organizar aquilo que sentimos. Antes de qualquer tecnologia, foi através delas que aprendemos a compreender o mundo e, sobretudo, a nós próprios.

Sem palavras não conseguimos dar forma às nossas emoções; e sem expressão não existe verdadeiro autoconhecimento. Escrever é, muitas vezes, a melhor maneira de trazer para o exterior aquilo que permanece escondido no nosso íntimo — especialmente para quem, como eu, encontra dificuldade em expressar sentimentos em voz alta.

O desafio está em transformar emoções em linguagem. Primeiro perceber o que sentimos, depois encontrar as palavras certas para o descrever. Creio que acontece a todos, salvo raras exceções.

Quando um texto consegue representar com verdade o que sente quem o escreveu, o leitor encontra aí a possibilidade de se rever. A identificação pode ser maior ou menor, mas a escrita ganha força para provocar impacto, despertar reflexão e gerar emoções — positivas ou negativas, mas nunca indiferença.

Num tempo em que a velocidade digital domina, o espaço tranquilo da palavra escrita torna-se ainda mais essencial. A escrita sólida exige pausa, exige profundidade. Obriga-nos a olhar para dentro como quem se examina ao espelho. E, nesse processo, amadurece a compreensão que temos de nós mesmos.

As palavras permanecem no tempo e atravessam gerações. Aproximam pessoas que nunca se cruzaram. Têm o poder de unir desconhecidos pela força da linguagem, influenciar comportamentos, moldar atitudes e transmitir conhecimento.

Ler é uma forma de autoconhecimento. É aproximarmo-nos mais de quem somos. É ganhar tempo para nós próprios, para a nossa autorreflexão e para o nosso crescimento pessoal.

Quer sejamos escritores, quer sejamos leitores, estamos unidos pelas palavras de forma intemporal.

Para mim, a escrita é o lugar onde me encontro. Espero que aqueles que me leiam também se encontrem a si próprios. Se isso acontecer, o propósito das minhas palavras foi cumprido.

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