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Apresentados

Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa

 Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa. Há emoções que não se ajustam ao tempo curto de um diálogo, nem ao ruído que o envolve. As conversas pedem respostas rápidas, palavras imediatas, explicações claras. Mas o que sentimos raramente é claro. O que sentimos é denso, confuso, por vezes contraditório. E, muitas vezes, precisa de silêncio antes de precisar de palavras. Numa conversa, somos interrompidos pelo olhar do outro, pelas reações, pelas expectativas. Pensamos no que dizer, mas também no que evitar. Medimos palavras, suavizamos verdades, escondemos partes de nós para manter o equilíbrio. Nem sempre é falta de coragem — muitas vezes é apenas consciência de que aquele espaço não é suficiente para aquilo que sentimos carregar. Há sentimentos que precisam de tempo para se organizarem. Precisam de pausa, de escuta interior, de um ritmo mais lento. Quando tentamos colocá-los numa conversa apressada, parecem perder profundidade. Tornam-se rasos, incompletos, mal compreendidos...

Quando um livro nos encontra no momento certo

 Escolher um livro é sempre um pequeno salto no desconhecido. Antes de o abrirmos, pouco sabemos sobre ele — apenas a promessa silenciosa de que poderá tocar algo dentro de nós. E, no entanto, há momentos em que, ao terminar uma leitura, percebemos que fomos nós os escolhidos. Como se aquela obra, perdida entre milhares, tivesse esperado exatamente pelo instante certo para se revelar. Há livros assim: chegam quando precisamos, não quando procuramos.

A leitura tem esse poder misterioso de alinhar emoções com palavras. Por vezes, um livro oferece exatamente a frase que tentávamos formular há anos. Outras vezes, dá nome a um sentimento que nunca soubemos descrever. A literatura é, muitas vezes, a voz que não tínhamos. E é por isso que certos livros parecem compreender-nos melhor do que pessoas que convivem connosco todos os dias.

Determinadas obras funcionam como uma bússola emocional. Não nos dizem apenas para onde ir — mostram-nos quem somos naquele momento. Um personagem pode espelhar a nossa inquietação; uma metáfora pode desvendar uma dor antiga; um parágrafo pode iluminar uma dúvida interior. A leitura significativa tem essa força: parte do exterior, mas ressoa profundamente no interior. Ajuda-nos a organizar o que sentimos e, por vezes, até o que não sabíamos que sentíamos.

Há quem procure nos livros um abrigo temporário. Outros procuram respostas. E há quem procure apenas silêncio — aquele silêncio bom, que nasce quando mergulhamos numa história que não é nossa, mas que poderia ser. Os livros acalmam ansiedades, diminuem a solidão e dão forma ao que está disperso dentro de nós. Permitem-nos respirar enquanto o mundo exige que corramos. E isso, por si só, já é um ato curativo.

No entanto, nem todos os livros funcionam em qualquer fase da vida. Há obras que só nos tocam quando estamos maduros para as compreender. Há outras que passam despercebidas até que, anos depois, se tornam absolutamente essenciais. A verdade é simples: um livro pode ser extraordinário, mas se não estivermos preparados, ele não nos encontra. A leitura também exige o momento certo — um instante emocional onde mente e texto se cruzam com precisão cirúrgica.

Os livros que verdadeiramente nos marcam deixam cicatrizes bonitas. São marcas internas que não desaparecem com o tempo. Podem até influenciar decisões, mudar perspetivas, transformar maneiras de sentir. São livros que perduram, mesmo quando já não estão nas nossas mãos — permanecem na nossa forma de olhar para o mundo.

Da próxima vez que entrares numa livraria e estiveres diante de uma estante cheia de possibilidades, lembra-te disto: talvez não sejas tu a escolher o próximo livro. Talvez o livro já te tenha escolhido e esteja apenas à espera de que estendas a mão. Basta estarmos emocionalmente abertos para esse encontro. Basta deixarmos que a leitura faça o que sempre fez: aproximar-nos de nós mesmos.

Eu, pessoalmente, permaneço sempre disponível para ser encontrado por um livro. Sei que, a qualquer momento, a minha história pode cruzar-se com a escrita de alguém que nunca conheci, mas que, de alguma forma, me conhece através das palavras. É nesses encontros improváveis que se mostra a importância da literatura — e é por isso que continuo aqui, neste lugar onde me encontro, à espera da próxima história capaz de transformar o meu silêncio em descoberta.

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