Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa
Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa.
Há emoções que não se ajustam ao tempo curto de um diálogo, nem ao ruído que o envolve. As conversas pedem respostas rápidas, palavras imediatas, explicações claras. Mas o que sentimos raramente é claro. O que sentimos é denso, confuso, por vezes contraditório. E, muitas vezes, precisa de silêncio antes de precisar de palavras.
Numa conversa, somos interrompidos pelo olhar do outro, pelas reações, pelas expectativas. Pensamos no que dizer, mas também no que evitar. Medimos palavras, suavizamos verdades, escondemos partes de nós para manter o equilíbrio. Nem sempre é falta de coragem — muitas vezes é apenas consciência de que aquele espaço não é suficiente para aquilo que sentimos carregar.
Há sentimentos que precisam de tempo para se organizarem. Precisam de pausa, de escuta interior, de um ritmo mais lento. Quando tentamos colocá-los numa conversa apressada, parecem perder profundidade. Tornam-se rasos, incompletos, mal compreendidos. E acabamos por nos calar, não porque não queremos falar, mas porque não sabemos como fazê-lo naquele momento.
É por isso que, tantas vezes, levamos para dentro aquilo que não coube fora. Guardamos palavras por dizer, emoções por nomear, pensamentos por ordenar. Criamos um silêncio que não é vazio, mas cheio de coisas que ainda não encontraram forma. Esse silêncio pode pesar, mas também pode ser fértil.
A escrita surge, então, como um outro tipo de conversa. Uma conversa sem pressa, sem interrupções, sem necessidade de conclusão imediata. Escrevendo, podemos voltar atrás, reformular, hesitar. Podemos ser honestos sem precisar de justificar. As palavras escritas aceitam a imperfeição do sentir. Aceitam o processo.
Nem tudo o que sentimos precisa de ser explicado a alguém. Algumas emoções precisam primeiro de ser compreendidas por nós. Quando escrevemos, criamos esse espaço de compreensão. É como se colocássemos ordem no caos interior, não para o controlar, mas para o reconhecer. A escrita não resolve tudo, mas ilumina.
Há também sentimentos que só existem plenamente quando não são ditos em voz alta. Quando permanecem íntimos, protegidos. Não por vergonha, mas por respeito. Respeito pelo tempo que precisam, pela delicadeza que exigem. A escrita permite essa intimidade. É um lugar onde podemos ser inteiros sem exposição forçada.
Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa porque nem tudo foi feito para ser partilhado de imediato. Algumas verdades amadurecem em silêncio. Outras transformam-se antes de poderem ser ditas. E algumas ficam connosco, como parte daquilo que somos, sem nunca precisarem de sair.
Escrevo para dar espaço ao que não coube.
Escrevo para ouvir o que ficou por dizer.
Escrevo porque há sentimentos que só sabem existir assim.
Aqui, onde o silêncio também fala.