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Apresentados

Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa

 Nem tudo o que sentimos cabe numa conversa. Há emoções que não se ajustam ao tempo curto de um diálogo, nem ao ruído que o envolve. As conversas pedem respostas rápidas, palavras imediatas, explicações claras. Mas o que sentimos raramente é claro. O que sentimos é denso, confuso, por vezes contraditório. E, muitas vezes, precisa de silêncio antes de precisar de palavras. Numa conversa, somos interrompidos pelo olhar do outro, pelas reações, pelas expectativas. Pensamos no que dizer, mas também no que evitar. Medimos palavras, suavizamos verdades, escondemos partes de nós para manter o equilíbrio. Nem sempre é falta de coragem — muitas vezes é apenas consciência de que aquele espaço não é suficiente para aquilo que sentimos carregar. Há sentimentos que precisam de tempo para se organizarem. Precisam de pausa, de escuta interior, de um ritmo mais lento. Quando tentamos colocá-los numa conversa apressada, parecem perder profundidade. Tornam-se rasos, incompletos, mal compreendidos...

Quando a escrita cura: porque escrever é também um ato de sobrevivência

 Todos passamos por fases difíceis ao longo da vida. Às vezes os problemas chegam uns atrás dos outros, quase sem tempo para respirar, e carregam consigo ansiedade, medo e uma súbita desordem interior. Surgem sem aviso, como se o chão se abrisse debaixo dos nossos pés, e interferem com a forma como pensamos, sentimos e reagimos. Por mais que tentemos acreditar que estamos a salvo, a verdade é que ninguém está.

É nestes momentos que a escrita pode transformar-se numa espécie de terapia silenciosa. Escrever ajuda-nos a tomar consciência do que carregamos dentro, a dar forma ao caos e a reduzir a intensidade emocional que tantas vezes nos paralisa. As palavras não eliminam a dor, mas dão-lhe uma estrutura. E é nessa estrutura, ainda frágil, que começa o primeiro passo para a cura emocional. O cérebro agradece quando trocamos o turbilhão interior pela clareza das frases que conseguimos construir.

Quando os meus problemas parecem do tamanho do mundo, reduzo-os ao tamanho das palavras. A escrita é companhia — fiel, discreta, sempre presente. Quando escrevo, converso comigo mesmo. Mesmo sozinho, estou acompanhado pelas palavras, que tantas vezes me entendem melhor do que qualquer pessoa.

A escrita ajuda-nos a sobreviver quando o tempo parece insuficiente para curar o que sentimos. Cada frase é uma forma de resistência, cada parágrafo um gesto de resiliência. A escrita é porto de abrigo quando tudo o resto falha. No início tentamos dominar a escrita; no fim, percebemos que é ela que nos domina a nós.

As palavras funcionam como um eco: transportam emoções e devolvem-nas a quem as lê. E, tal como curam quem escreve, podem também curar quem as encontra pela primeira vez. Quantas vezes lemos algo que parece ter sido escrito exatamente para nós? É nesse instante que a ligação acontece: reconhecemos a dor, a esperança ou a dúvida do outro como se fossem nossas. É assim que a escrita nos aproxima e nos une, mesmo quando nunca nos cruzámos.

A mim, a escrita devolve-me ao meu centro. Ajuda-me a reorganizar pensamentos, sentimentos e emoções. Dá-me uma pausa interior para reconstruir o que foi desfeito. A escrita é renovação, reconstrução e reencontro.

Para mim, continua a ser o lugar onde me encontro. Espero que quem lê estas palavras também se encontre — nem que seja um pouco — neste mesmo lugar.

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